sábado, 31 de maio de 2008

Semana 5 forum da unidade

Depois da leitura dos textos e da visitação dos links apresentados vamos compartilhar nossas impressões? Quais trabalhos lhe despertaram maior interesse? Por quê? Qual leitura você faz deles?

Olá, professora Carla e amigos do Curso de Música. Após dar uma olhada na semana, e visitar a nova interface, onde lá se localiza todos os conteúdos desta unidade, o que me chamou mais a atenção foi o texto música por computador, de Cíntia Campolina, pois ele retrata mais ou menos aquilo que vamos fazer no futuro, quando nos formarmos em música, pois fala um pouco sobre os instrumentos e os associa com o microcomputador. No texto também fala sobre as mídias utilizadas pelos instrumentos que é o MIDI, uma mídia universal, utilizada somente para sons. Nele abre uma polêmica sobre a utilização desta mídia, pois se acreditam que no futuro o computador possa substituir os músicos.

José Portela Cacau
Licenciatura em Música
Pólo Tarauacá – Acre

31.05.2008

domingo, 25 de maio de 2008

Portela Tocando Violão

Dica: Pause e espere carregar completamente para não ficar travando

video


Vídeo gravado para a observação do professor César.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Ótimo site sobre artes

Esse site é muito bom, eu o achei quando tava fazendo uma pesquisa sobre o assunto, ele mostra várias obras de artistas sua bibliografia e muito mais. Vale a pena conferir.
http://www.arteducacao.pro.br/

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Tutores em Brasília

Tutores da UAB-UNB em Brasília dos Pólos da Região Norte estudados neste Bimestre e a Coordenadora do Curso de Música Professora Flávia.

domingo, 18 de maio de 2008

Bem vindos ao meu Blog

Prát. de Ens. Aprend. Musical 1"Educação musical na contemporaneidade "Margarete Arroyo "

A II S N P M

Educação musical na contemporaneidade

Margarete Arroyo

Introdução

O tema proposto para esta mesa, Educação Musical na Contemporaneidade, é

instigante, uma vez que somos cotidianamente desafiados a repensar nossas práticas em

vista das questões que nossos alunos trazem ou do que a sociedade, de modo geral,

demanda de nós, educadores musicais. Entretanto, ele envolve uma teia complexa de

aspectos teóricos e práticos, de modo que nesta exposição proponho-me a apresentar um

fio desta teia, isto é, vou me concentrar na abordagem sociocultural da Educação Musical

na Contemporaneidade.

musical, “fenômeno

Essa abordagem implica em considerarmos que toda prática

transversal”, que "perpassa todos os espaços sociais" (Bozon, 2000, p.147), traz implícita a

aprendizagem dessa prática e que, assim, alguma modalidade de educação musical ocorre

em diversos contextos, envolvendo grupos sociais e culturais diversos.

Para discorrer sobre o recorte que escolhi, terei que esclarecer em que sentido os

termos “contemporaneidade” e “educação musical

” estarão sendo entendidos no âmbito

desta exposição. Também terei que mencionar sobre que bases epistemológicas a parte da

Educação Musical contemporânea que focalizei está assentada e qual tem sido seu campo

de investigação.

O objetivo desse texto é apresentar a abordagem sociocultural da Educação Musical

na contemporaneidade, focalizando parte de sua produção científica desde 1990 através de

uma bibliografia brevemente comentada.

Contemporaneidade e Educação Musical

Tomo por contemporaneidade “o hoje” ou o bem próximo do hoje, ou ainda, o que

parte de nós educadores musicais e/ou pesquisadores temos pensado e realizado no

momento. Entretanto, é preciso estar ciente de que esse pensamento e essa ação estão

assentados sobre um processo de construção de idéias e práticas, isto é, sobre uma história

que vem influenciando a área da Educação Musical. Assim, ao falar da abordagem

sociocultural da Educação Musical na contemporaneidade, além de focalizar parte do que

se pensa e se faz “hoje” na área, representado por parte da produção científica dos últimos

12 anos, também abordarei, mesmo que brevemente, a produção anterior a esse período,

pois a meu ver, ela foi definindo uma maneira de conceber aspectos da Educação Musical

atual.

O termo "Educação Musical" abrange muito mais do que a iniciação musical

formal, isto é, é educação musical aquela introdução ao estudo formal da música e todo o

processo acadêmico que o segue, incluindo a graduação e pós-graduação; é educação

musical o ensino e aprendizagem instrumental e outros focos; é educação musical o ensino

e aprendizagem informal de música. Desse modo, o termo abrange todas as situações que

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A II S N P M

envolvam ensino e/ou aprendizagem de música, seja no âmbito dos sistemas escolares e

acadêmicos, seja fora deles.

As bases epistemológicas

Vou apresentar a seguir minha visão do processo de construção histórica do que

hoje entendemos como a abordagem sociocultural da Educação Musical, focalizando suas

bases epistemológicas, ou seja, as formas de conhecer que esse sub campo adota. É

importante ter consciência dessas formas de conhecer, pois elas têm um impacto direto

sobre nossas ações.

Voltemos rapidamente para o início do século XX, quando a educação musical em

era a acadêmica/escolar, isto é, a educação musical que

foco na sociedade ocidental

acontecia nos conservatórios e nas escolas. Suas bases epistemológicas estavam assentadas

em algumas formas de conhecer ou entender a realidade: a compreensão do ensino e da

aprendizagem musical estava baseada em uma lógica carteziana e positivista e o que

deveria ser ensinado e aprendido era o que na visão evolucionista era tomado como o ápice

da produção musical da humanidade: a música de concerto dos séculos XVIII e XIX da

tradição européia.

Paralelamente a essas formas de conceber a realidade e o que se entendia por

música e por seu ensino e aprendizagem, estavam ocorrendo “revoluções” em diversas

áreas do conhecimento, isto é, outras possibilidades de entender a realidade e que rompiam

com muitas das visões em vigor. Entre as áreas onde novas visões de realidade estavam

sendo construídas e que facilmente poderíamos localizar estão: a Física, a Psicologia, as

Ciências Sociais, as Artes, a Pedagogia, a Economia, entre outras. Essas “revoluções”

determinaram o que passamos a reconhecer como o século XX, e nesse processo histórico,

o pensamento e a ação da Educação Musical foram sendo revistos.

Não vou fazer aqui um inventário das modificações que nosso campo de atuação foi

tendo ao longo do século passado; vou sim, deter-me em uma das vertentes dessas

modificações, a já mencionada abordagem sociocultural da Educação Musical, que, a meu

ver, constitui-se em parte significativa da produção contemporânea da área.

Para compreender a constituição dessa vertente é necessário observar as

“revoluções” que ocorreram nas ciências sociais, que por sua vez influenciaram as

musicologias e as pedagogias, campos de conhecimento que segundo alguns autores

conferem bases conceituais e de ação para a Educação Musical (Arroyo, 1998/99; 1999;

Kramer, 2000; Del Ben e Hentschke, 2001).

A Antropologia, ciência que nasceu sob influencia epistemológica do positivismo e

evolucionismo em fins do século XIX, foi, por força de novos procedimentos

interpretativos de seus próprios dados de pesquisa construindo outro referencial teórico.

Nessa construção, dois conceitos contribuíram para toda uma revisão epistemológica nas

ciências sociais. Trata-se dos conceitos de relativização dos processos e produtos culturais

e de cultura. Relativização implica que os processo e os produtos culturais só podem ser

compreendidos se considerados no seu contexto de produção sociocultural; o conceito de

encontra no entendimento de Cliffort Geertz uma interpretação que tem

cultura

influenciado muitos estudiosos, isto é, cultura entendida como uma teia de significados que

conferem sentido à existência humana (Geertz, 1989). Essa revisão epistemológica na

Antropologia teve um importante papel na superação de uma visão eurocêntrica da

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A II S N P M

produção cultural humana, isto é, a cultura européia deixou de ser o modelo ideal de cultura

e passou a ser mais uma das várias culturas.

Para exemplificar estes conceitos de relativização e cultura, tomo como exemplo o

objeto de estudo da Etnomusicologia ou Antropoliga da Música, isto é, "a música como

cultura" (Merrian, 1964). Então, de acordo com uma visão relativizadora e da compreensão

de cultura como teia de significados que conferem sentido à ação dos grupos sociais, a

música de, por exemplo, alguma população africana deve ser compreendida segundo a

lógica da cultura desta população e não segundo procedimentos valorizados de outra

cultura. Esta música africana não pode ser mais chamada de primitiva como o fora antes,

aos olhos da cultura européia. Esta postura relativista foi propiciando à Etnomusicologia a

superação de uma visão eurocêntrica de música, isto é, uma visão que tomava como

referência de análise e valor a música européia de concerto, e o reconhecimento de que já

não seria possível falarmos de música no singular. Estávamos então percorrendo as décadas

de 50 a 70 do século XX (Merrian, 1964; Blacking, 1973; 1995).

Outra contribuição decisiva das ciências sociais para uma compreensão mais densa

das sociedades e culturas é a idéia de que a realidade é uma construção social (Berger e

Luckmann, 1985[1966]). A superação de uma visão eurocêntrica do mundo e a

compreensão da construção social da realidade levaram a outras elaborações decisivas na

segunda parte do século XX, entre elas a visão pós-moderna e pós-estruturalista, quando

houve rupturas com a idéia de progresso, de objetividade incontestável da ciência; quando

as grandes narrativas foram substituídas pela narrativa de todos, e que poder e saber

poderiam estar estreitamente relacionados. Aqui avançamos as décadas de 1970 e 1980.

As musicologias, as pedagogias e a Educação Musical não ficaram imunes a todo

esse movimento. Além da ampliação das visões de música e da relação entre músicas e

culturas promovida pela Etnomusicologia, estudos sobre os discursos hegemônicos em

música aparecem, entre eles a chamada musicologia crítica e estudos da música popular

(McClaren, 1991; Middleton, 1990).

A partir dessa breve revisão, ressaltamos que a abordagem sociocultural da

Educação Musical se assenta sobre as idéias do relativismo cultural e sobre a idéia das

músicas como construções socioculturais. Associados a esses pontos, estão que: as músicas

devem ser estudadas não apenas como produto, mas como processo; alguma modalidade de

educação musical acontece em todos os contextos onde haja prática musical, sejam eles

formais ou informais; portanto há inúmeras possibilidade de se empreender a educação

musical, como ressalta Jorgensen (1997, p.66):

"a educação musical (...) é uma colagem de crenças e práticas. Seu papel na formação e

manutenção dos [mundos musicais] - cada qual com seus valores, normas, crenças e

expectativas - implica formas diferentes nas quais ensino e aprendizagem são realizados.

Compreender esta variedade sugere que pode haver inúmeras maneiras nas quais a educação

pode ser conduzida com integridade. A busca por uma única teoria e prática de instrução

musical aceita universalmente, pode levar a uma compreensão limitada".

Seu campo de investigação

Seguindo esta exposição, apresento parte da produção científica da abordagem

sociocultural da Educação Musical nos últimos 12 anos, ressaltando que não pretendi um

levantamento exaustivo da literatura, tarefa que demandaria muito mais tempo do que o

disponível para a elaboração deste texto.

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A II S N P M

Antes porém de chegar à produção dos últimos 12 anos, gostaria de destacar alguns

trabalhos ligados à Educação Musical anteriores a este período que, a meu ver, foram

fundamentais para irmos delineando essa perspectiva sociocultural que teve nos anos 90 e

início do século XXI uma explosão de produção. Em ambos os casos, serão citados os

estudos e um breve comentário dos mesmos.

1972 - “Music World Cultures” - número especial da revista Music Educators Journal,

editada pela Conferência Nacional de Educadores Musicais dos Estados Unidos (MENC,

1972).

Trata-se de um volume temático da referida revista, com artigos de antropólogos,

etnomusicólogos e musicólogos abordando as músicas de várias culturas.

1977 - “Music, Education, Society” - livro do pesquisador australiano Christopher Small

(Small, 1980; 1989).

Esse livro é considerado por muitos estudiosos como um marco no repensar da Educação

Musical nos seus aspectos conceituais e práticos. O autor propõe "examinar a tradição

musical ocidental" através da nossa vivência, acentuada no século XX, de outras culturas

musicais.

1977 - “Whose Music? A sociology of Musical Languages”, de John Shepherd, Phil

Virden, Graham Vulliamy e Treador Wishart. Os autores do livro, todos britânicos,

encabeçaram um movimento vinculado a uma perspectiva sociológico-crítica da Educação

Musical no final dos anos 70 e durante os anos 80 na Grã-Bretanha. (Shepherd et al.,

1977).

O livro traz temáticas ligadas à música e processo social, significado musical,

música e ideologia, educação musical e música popular.

1984 - “Possibilidades e limites de uma orientação musicológica à Educação Musical” -

artigo publicado na revista Art da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia pelo

musicólogo Alexandre Bispo (Bispo, 1984).

O artigo trata da proposta de uma orientação musicológica no currículo do curso de

Licenciatura em Música, fundamentada na "convicção de uma necessária posição

relativista no julgamento estético das várias manifestações musicais (...)" (p.55).

1984/85 - “Música e educação não-formal” - artigo publicado na revista Pesquisa e

Música, do Conservatório Brasileiro de Música. (Conde; Neves, 1984/85).

Esse artigo traz um estudo pioneiro no Brasil sobre o ensino e a aprendizagem

informal de música. Os autores, Cecília Conde e José Maria Neves, discutem como

a escola desprestigia a experiência musical de seus estudantes. O locus do estudo é

o Rio de Janeiro.

1985 - "Becoming Human Through Music: The Wesleyan Symposium on the Perspectives

of Social Anthropology in the Teaching and Learning of Music". Esse simpósio aconteceu

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A II S N P M

nos Estados Unidos em 1984 e contou com presença de vários antropólogos e

etnomusicólogos. (MENC, 1985).

A publicação conta com textos de David P. McAllester, Robert Garfias, John Blacking,

Bruno Nettl, Charles Keil, Timothy Rice, entre outros. Esses textos abordam estudos

etnomusicológicos sobre ensino e/ou aprendizagem de música nas culturas estudadas por

esses pesquisadores.

1998 - "Hãlau, Hochschule, Maystro, and Ryu: cultural approches to music learning and

teaching" - texto publicado nos anais do congresso da ISME (International Society of

Music Education) e de autoria do etnomusicólogo filipino Ricardo Trimillos. (Trimillos,

1988)

Trimillos propõe um modelo de observação de quatro contextos de educação musical

citados no título do texto, a partir dos seguintes aspectos relacionados a cada uma das

músicas praticadas nesses contextos: o que é crítico a cada uma das práticas, o que é

desejável e o é incidental. Através desse quadro comparativo, fica evidente a necessidade

de uma postura relativista sobre o estudo das práticas musicais e conseqüente necessidade

de ampliação conceitual e prática da Educação Musical.

1988 - “Music on deaf ears: musical meaning, ideology, education” - Lucy Green, a autora

desse livro, é educadora musical inglesa que tem se dedicado à perspectiva sociológica da

Educação Musical. (Green, 1988).

Lucy Green aponta para as várias questões que têm sido levantadas sobre o fazer musical

contemporâneo e procede a um estudo sobre a construção do significado musical,

ressaltando aspectos ideológicos. A autora defende que todo processo de significação

musical é permeado pelas ideologias presentes nas relações sociais.

1988 - “Music, talent, and performance: a conservatory cultural system” - Este livro resulta

do estudo de doutorado do americano Henry Kingsburry. (Kingsburry, 1988).

Kingsburry realiza uma incursão antropológica em uma conceituada escola norteamericana

de música, desvelando os sentidos culturais desse sistema social. Trata-se de um estudo de

referência sobre um abordagem antropológica do ensino e aprendizagem da música de

concerto da tradição européia.

A partir dos anos 90, os estudos socioculturais da Educação Musical expandem-se

consideravelmente, tanto no exterior quanto no Brasil.

1990 - “Educação Musical: processo de aculturação ou enculturação” - artigo publicado na

revista Em Pauta, do Programa de Pós-Graduação em Música da Universidade Federal do

Rio Grande do Sul. (Arroyo, 1990)

1991 - “Aprendizagem Musical não-formal em grupo culturais diversos” - artigo publicado

nos Cadernos de Estudo - Educação Musical. (Santos, 1991)

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Este artigo e o anterior tratam de uma revisão bibliográfica sobre a abordagem sociocultural

da Educação Musical.

1992 - “The relationship between music and control in the everyday processes of the

schooling ritual” - Tese de doutorado de Irene Tourinho (1992), a partir da qual a autora

publicou vários artigos (Tourinho, 1992; 1993a; 1993b; 1994).

Tourinho realiza um estudo de referência em escolas parque de Brasília, focalizando os usos

e funções da música nesse contexto.

1995 - “Motivações, expectativas e realizações na aprendizagem musical: uma etnografia

sobre alunos de uma escola alternativa de música” - Dissertação de Mestrado de Walênia

Silva que abre caminho para uma série de estudos posteriores de linha etnográfica. (Silva,

1995; 1997).

A autora, educadora musical, insere-se etnograficamente em uma escola "alternativa" de

música localizada em Porto Alegre, desvelando os sentidos locais do ensino e aprendizagem

de música.

1995 - “Educação musical informal e suas formalidade”, comunicação de Marialva Rios

apresentada no IV Encontro Anual da ABEM. (Rios, 1995).

Nessa comunicação a autora descreve parte de sua pesquisa de mestrado, onde realiza um

estudo abordando processos informais e formais do ensino e aprendizagem de música. O

trabalho de campo, realizado em Salvador, indica as "formalidades" dos processos

informais de ensino e aprendizagem musical.

1995 - “Heartland excursions: ethnomusicological reflections on schools of music” - Livro

do etnomusicólogo americano Bruno Nettl (Nettl, 1995).

Nettl analisa etnomusicologicamente escolas americanas de música onde atuou por vários

anos. Trata-se de mais um estudo de caráter antropológico sobre o ensino e aprendizagem da

música de concerto da tradição européia.

1995 - “Music Matters: a new philosophy of music education” - David Elliott, educador

musical canadense. (Elliott, 1995)

Esse livro, de enfoque didático e dirigido para estudantes de licenciatura em música, traz

uma proposta de filosofia da educação musical sustentada, entre outros, por estudos

etnomusicológicos.

1997 - “In search of Music Education” - Estelle Jorgensen, educadora musical norte-

americana. (Jorgensen, 1997).

Jorgensen propõe nesse livro uma "visão dialética da Educação Musical", tendo como base

estudos de linha sociológica e antropológica (etnomusicológica), entre outros.

1997 - “Music, Gender, Education” - Lucy Green (1997)

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A II S N P M

Esse segundo livro de Green aborda a categoria de gênero (masculimo e feminino) na

educação musical sob a perspectiva da sociologia.

1998 - “Formação e atuação dos músicos de rua de Porto Alegre: um estudo a partir de

relatos de vida” - Dissertação de Mestrado. Celson Henrique S. Gomes (1998; 1998/99)

1998 - “ Saberes musicais em uma bateria de escola de samba uma etnografia entre bambas

da orgia” - Dissertação de Mestrado. Luciana Prass (1998; 1998/99).

1998 - “Oficina de música: uma etnografia dos processos de ensino e aprendizagem

musical em bairros populares de Porto Alegre” - Dissertação de Mestrado. Marília Stein

(1998; 1998/99).

Esses três estudos ampliam de modo significativo o movimento iniciado no Brasil por

Conde e Neves (1984/85), Tourinho (1992), Rios (1995) e Walênia Silva (1995). Essas

quatro pesquisas abordam diferentes espaços onde ensino e aprendizagem musical

acontecem. Gomes insere-se entre os músicos de rua de Porto Alegre, Prass, entre os

sambistas de uma escola de samba também em Porto Alegre e Stein, entre "oficineiros e

oficinantes" de projetos de Oficina de Música em bairros populares da capital gaúcha.

1998 - “Songs in the heads: music and its meaning in children’s life” - livro de Patricia

Campbell, educadora musical norte-americana. (Campbell, 1998).

Campbell vem há anos publicando textos que articulam educação e diversidade musical.

Nesse livro, seu foco é a variedade das relações que as crianças estabelecem com o fazer

musical. Adotando a técnica da observação e da entrevista, a autora registra aquela relação

em diferentes contextos: no recreio da escola, em lojas de brinquedos e em parques, etc.

1999 - “Representações sociais sobre prática de ensino e aprendizagem musical: um estudo

etnográfico entre congadeiros, professores e estudantes de música” - Tese de doutorado.

(Arroyo, 1999; 2000; 2001).

A autora se insere etnograficamente em dois contextos diversos de ensino e aprendizagem

musical: contexto de uma festa do congado e contexto de um conservatório de música,

ambos localizados na cidade de Uberlânida, MG. Promove, a partir dessa inserção,

reflexões acerca de um olhar antropológico sobre práticas de ensino e aprendizagem

musical.

2000 - “Análise dos processos de ensino-aprendizagem do acompanhamento do choro no

violão de seis cordas” - Dissertação de mestrado. Carlos A G. da Costa Chaves. (Chaves,

2000).

Os citados processos de ensino e aprendizagem são desvelados a partir de um conjunto de

entrevistas com músicos de choro.

2000 - “Violão sem professor: um estudo sobre processos de auto-aprendizagem com

adolescentes” - Marcos Corrêa (Corrêa, 2000; Souza; Corrêa, 2001).

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A II S N P M

Estudo que desvela as práticas de aprendizagem informal de música realizadas por

adolescentes de classe média residentes em Porto Alegre.

2000 - “A música é, bem dizê, a vida da gente; um estudo com crianças e adolescentes em

situação de rua na Escola Municipal Porto Alegre - EPA” - Vânia Müller (Müller, 2000a e

b)

Estudo que mostra a presença cotidiana da música entre crianças e adolescentes em situação

de rua.

2000 - “ Música, cotidiano e educação” - Jusamara Souza (org). (Souza et all, 2000)

Essa publicação resulta de uma pesquisa empreendida coletivamente e que focalizou os

estudos do cotidiano e experiências de uma educação musical baseada nesses estudos.

2001 - “How popular musicians learn: a way ahead for Music Education” - Lucy Green.

(Green, 2001)

Green constata que, apesar de nas últimas décadas a música popular ter adentrado cada vez

mais nos espaços institucionalizados de educação musical, pouco se sabe sobre "como os

músicos populares aprendem" música informalmente. O livro tem entre outros objetivos:

"examinar a natureza das práticas de aprendizagem informal dos músicos populares, suas

atitudes e valores" e explorar algumas possibilidades que as práticas de aprendizagem

informais da música popular poderiam oferecer à educação musical formal". (6-7)

2002 - "Música e televisão no cotidiano de crianças: um estudo de caso com um grupo de 9

e 10 anos". Dissertação de mestrado. Silvia Nunes Ramos. (Ramos, 2002).

Apresenta uma importante revisão bibliográfica sobre a televisão como meio de

aprendizagem, além de trazer dados de entrevistas e observação do que de música as

crianças aprendem através desse difundido meio de comunicação de massa e como. Tendo

como referencial teórico os meios de comunicação, os estudos do cotidiano e a pedagogia

crítica, essa pesquisa abre um valioso caminho para outros estudos no sentido de

compreendermos a relação entre aprendizagem musical, crianças/adolescentes e músicas

veiculadas na televisão.

2002 - "Do sertão para as salas de concerto: viola - um processo de ensino-aprendizagem".

Dissertação de mestrado. Andréa Carneiro de Souza. (Souza, 2002).

A partir de entrevistas realizadas com quatro violeiros (Abel Santos, Adelmo Arcoverde,

Braz da Viola e Roberto Corrêa), um interessante material é levantado sobre a participação

as práticas de ensino e aprendizagem da viola na trajetória que esse instrumento está

percorrendo do "sertão" para "as salas de concerto".

Conclusão

O objetivo deste texto foi apresentar a abordagem sociocultural da Educação

Musical como uma importante vertente contemporânea dessa área de conhecimento.

Baseados nos pressupostos epistemológicos do relativismo cultural e da constituição social

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e cultural das práticas musicais, fazendo uso de metodologia de investigação de campo e de

técnicas que desvelam como o ensino e a aprendizagem de música acontecem em diferentes

cenários, os trabalhos apresentados na bibliografia comentada mostram alguns pontos que

merecem atenção. É a esses pontos que me dirijo agora.

Nos anos 70, a produção do que viria posteriormente a se constituir na abordagem

sociocultural da Educação Musical foi realizada principalmente por etnomusicólogos,

antropólogos e musicólogos, que a partir de seus trabalhos de campo em diferentes grupos

culturais, buscam chamar a atenção dos educadores musicais para a necessidade de

ampliações conceituais e práticas da Educação Musical.

Nos anos 80, os educadores musicais-pesquisadores começam a responder a esse

chamado, respostas que crescem substancialmente nos anos 90.

Os trabalhos de campo constituem-se em um procedimento fundamental para o

desvelamento das práticas de ensino e aprendizagem musicais locais e, a partir desse

desvelamento, passar à construção das primeiras sínteses conceituais. Essas, a meu ver,

estão presentes nos trabalhos de Elliott (1995) e Jorgensen (1997). Entretanto, vemos que

ainda neste início de século XXI os trabalhos de campos são o principal tipo de produção,

numa indicação de que é preciso levantar mais evidências para articularmos modelos

teóricos no âmbito dessa abordagem sociocultural.

Outra observação a ser feita diz respeito à diversidade dos contextos de estudo. São

focalizados: grupos culturais tradicionais; grupos urbanos, escolares e não escolares;

cenários fortemente vinculados à tradição da música européia de concerto; cenários

vinculados às músicas populares; o papel das tecnologia atuais, como a internet, e nem tão

atuais, como a televisão, na aprendizagem musical.

Mas, sem dúvida, o maior desafio que a área enfrenta a partir desses estudos diz

respeito às ações, principalmente nos cenários acadêmicos e escolares. Algumas questões

levantadas nesse sentido são:

Como trazer para os sistemas escolares os procedimentos de ensino e aprendizagem

de práticas musicais construídos em contextos não escolares?

Como podemos recriar as práticas de educação musical escolares e acadêmicas a

partir da ampliação da visão de ensino e aprendizagem musical advindas das pesquisas

citadas nesse texto?

Como formar os educadores musicais na perspectiva da abordagem sociocultural da

Educação Musical?

Alguns relatos sobre as ações baseadas na abordagem sociocultural da Educação

Musical começam a parecer nesse início de século. Os anais do 7° Simpósio Paranaense de

Educação Musical, realizado em 2000 sob a temática "Educação Musical: Transitando entre

o formal e o informal"(Curso de Música/UEL, 2000) trazem exemplos dessa produção que

merece também um comentário bibliográfico, cujo objetivo é fazer conhecer campos de

produção. Mais do que isso, as ações baseadas nessa abordagem sociocultural merecem um

cuidadoso trabalho de análise e reflexão para entendermos como estamos construindo a

Educação Musical na contemporaneidade. Essa tarefa fica para outra ocasião.

Referências bibliográficas

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Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, n.10, p. 37-62, 1984.

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adolescentes. Dissertação (Mestrado em Educação Musical) - IA/PPG-Música, Universidade

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Notas

As práticas musicais compreendem um complexo de aspectos, desde os produtores e receptores das ações

musicais, o que eles produzem, como e por quê, e todo o contexto social e cultural que dá sentido às próprias

ações musicais.

Quando a expressão Educação Musical vier escrita com as letras iniciais em maiúsculo, refere-se à Educação

Musical como campo acadêmico de conhecimento tal qual a Antropologia ou a Etnomusicologia. Quando esta

expressão vier escrita com todas as letras minúsculas, refere-se à educação musical como prática.

29

PEAM 1 - Prát. Ens. Aprend. Mus. 1 "CENAS DO FILME MUDANÇA DE HÁBITO 2

A AULA DE MÚSICA EM CENAS DO FILME MUDANÇA DE HÁBITO 2: MAIS LOUCURAS NO CONVENTO

Lilia Neves Gonçalves UFU/UFRGS


Este trabalho tem como objetivo desvelar relações entre a instituição/escola e a aula de música examinadas a partir de duas cenas selecionadas do filme Mudança de Hábito 2: mais loucuras no convento (1993). A escolha desse filme se justifica por este ser um exemplo interessante do entorno e das nuances, bem como das cenas complexas, simples e fugidias que habitam o cotidiano da aula de música.

As cenas selecionadas podem ser consideradas comuns nas escolas e nos convidam a pensar sobre a presença da música nas instituições escolares, sendo que alguns aspectos são explícitos e outros implícitos nas relações estabelecidas pela instituição com a aula de música.

Na primeira cena observamos o desconhecimento da direção e da administração escolar no que se refere à presença da música no currículo, bem como a hierarquização das disciplinas curriculares tanto no discurso quanto nos "silêncios constrangidos" de outros professores da escola.

Enquanto os burocratas estão alheios aos elementos que compõem o mundo pedagógico, no interior da organização escolar surgem alguns "desvios" que consistem em formas de romper com algumas regras pré estabelecidas, que se configura na "luta" de um grupo pela presença de uma professora de música na escola.

Na segunda cena vemos que os dirigentes escolares não estão atentos às potencialidades do seu ensino (tanto fazia ensinar música ou futebol), sendo que o entorno dessa cena aponta para uma escola que, como ia ser fechada, se negava gastar dinheiro com atividades secundárias.

Mas, antes de qualquer material para dar aula, é crucial que se aponte para a necessidade de que a escola se volte para as "práticas musicais que pertencem aos alunos" vivenciadas a partir de suas experiências de audição musical no cotidiano de seus grupos sociais e com as mídias, TV, rádio, internet, etc. Essas relações resultam em muitos tipos de manifestações musicais e que, para as quais, a escola não deve "fechar os olhos".

Vemos também que, apesar de não ser visível para a instituição, a música na escola estava no "aparente silêncio", nos espaços e tempos "marginais" como, por exemplo, a música dos recreios. Na contramão das discussões institucionais a alunos exercitava(m) outras práticas musicais, práticas que não estavam nos programas e nem nos livros escolares, mas que faziam parte do dia-a-dia dos alunos, de suas culturas e seus grupos sociais.

Partindo do princípio do cinema como artefato cultural o filme Mudança de hábito 2: mais loucuras no convento, por sua vez, reforça a impressão da realidade da aula de música nas escolas com os seus muitos enfrentamentos, como por exemplo: as funções atribuídas ao professor de música na escola, poucos materiais para sua prática, as múltiplas concepções e representações de música de toda a comunidade escolar. Nesse sentido, o filme nos torna testemunhas de cenas interessantes, profundas, motivadoras e, algumas vezes, "reais demais", criando, portanto, um "sentimento" de identificação com circunstâncias vividas pela música nas escolas.

Introdução

Falar, escrever sobre a música nas instituições escolares nem sempre é uma tarefa fácil. Isso porque, na maioria das vezes, o que vemos e vivemos nas escolas não nos estimula a aceitar os desafios que nos são postos. Esses desafios estão não só no enfrentamento das atividades pedagógico-musicais diárias, mas também na dificuldade de argumentos e atitudes que justifiquem a presença da música nos currículos escolares.

Para focalizarmos a presença da música na instituição escolar podemos "recolher informações" através de entrevistas com diretores, inspetores e coordenadores escolares, professores, pais e alunos. Também podemos investigar leis, programas, relatórios escolares, planos de aulas, e realizar observações no âmbito escolar para refletirmos sobre alguns dos vários aspectos que envolvem o fenômeno educativo, ou seja, poderíamos "percorrer as mais variadas formas do discurso pedagógico e nelas encontrar concepções sobre educação, escola e professores" (MORAES, s.d, p. 1-2).

Neste trabalho não lançamos mão de nenhum desses recursos, mas de cenas selecionadas do filme Mudança de Hábito 2: mais loucuras no convento (Ficha técnica em anexo) que, enquanto linguagem cinematográfica, "não é espelho, mas representações da realidade ... é uma visão parcial e construída" (McCARTHY, s.d, p. 1) de vários aspectos envolvidos na prática pedagógica. Também "qualquer compreensão que se tenha dele não é fixa e imutável" ... [mas] como "meio de representação ... constrói e representa seus quadros de realidade por meio de códigos, mitos, convenções, ideologias de uma cultura, bem como práticas de significação" (SALCIDES; FABRIS, p. 1).

Nesse sentido, Fabris (p. 2) considera que Hollywood "nos ensina coisas de um modo particularmente interessante, com forte apelo produzido pela linguagem cinematográfica que nos coloca frente ao mundo da magia e da arte, em que o uso da câmera, da iluminação, da edição, som e outros efeitos contribuem para que possamos construir os significados a partir das histórias que ... nos conta".

Poucos trabalhos têm se detido em analisar o filme como fonte de significados e narrativas sobre a aula de música nos vários espaços. Brand e Hunt (1997) e Brand (2001) abordam a utilização de filmes na formação de professores, bem como representações de ensino de música e educação musical em filmes americanos.

Neste trabalho, partindo do princípio do cinema como artefato cultural, foram selecionadas para análise cenas que podem ser consideradas bastante comuns nas escolas e que nos convidam a pensar sobre as relações entre a instituição[1][1]/escola e a aula de música.

O filme: Mudança de hábito 2: mais loucuras no convento

No filme Mudança de hábito 2: mais loucuras no convento (1993) a personagem Deloris (Whoopi Goldberg), que se chama Irmã Mary Clarence, volta para o convento[2][2], dessa vez convidada pelas freiras para dar aula de música na escola. Esse filme, dentre suas várias facetas, mostra o mundo de jovens pobres da periferia de uma cidade americana, São Francisco, que estudam na única escola da comunidade. Aparentemente é um grupo de jovens que convive sem muitos conflitos, que enfrenta pobreza, desemprego, violência, que busca identidades e sonhos. São jovens negros, brancos, latinos, descendentes de orientais que se vestem de diferentes formas e parecem compartilhar gostos musicais, concepções de música, no entanto, algumas vezes, aparecem diálogos surpreendentes que reivindicam propriedade sobre heranças culturais negras.

Ao ser convidada para dar aula de música, Deloris, que era cantora e não professora, fica apreensiva, mas aceita por causa de sua amizade com as irmãs do convento. A grande preocupação era com o fechamento da escola, que vivia de doações e que sem dinheiro teria que terminar suas atividades pedagógicas no final do semestre letivo.

Fica implícito no filme que as irmãs, as que já conheciam Deloris, acreditavam que ela poderia mudar a situação: ensinando música. Isso pode ser visto quando uma das irmãs fala: - "Imaginamos a escola como uma espécie de renovação e você Deloris é o exemplo de como se transformar uma pedra em ouro puro"[3][3].

Tal como já mencionado, no filme é evidente a falta de apego dos jovens pela aula de música, e mesmo não tendo formação pedagógica Deloris aceita dar aulas na escola. Inicia um longo enfrentamento dos seus medos e suas inseguranças, buscando procedimentos de ensino de música que motivassem os alunos. Essa motivação culminou com o prêmio conquistado no concurso de coros, prêmio este responsável pelo não fechamento da escola, pois com essa visibilidade conseguiu os recursos financeiros necessários para sua manutenção.

Desde os primeiros contatos com os alunos até o dia do concurso Deloris empreende um processo bastante "tateante" na busca de saídas para as variadas situações que se apresentam no dia-a-dia de suas aulas. São situações que envolvem lidar com concepções dos jovens de/sobre música, gosto musical, aprendizagem musical, profissão de músico e que, de uma forma ou de outra, foram redimensionando as experiências musicais de todos os envolvidos naquela instituição escolar.

Cenas da música na escola

Partindo do princípio de que um filme "é construído em uma sociedade e representa um olhar, um recorte, uma maneira de ver essa mesma sociedade, os sujeitos e as relações que nela se desenvolvem" (GOMES, 2003, p. 65), o Mudança de hábito 2: mais loucuras no convento reforça a impressão de realidade e parece que nos tornamos testemunhas de cenas interessantes, profundas, motivadoras e, algumas vezes, "reais demais".

Podemos dizer que esse filme é um exemplo bastante interessante do entorno e das nuances, bem como das cenas complexas, simples e fugidias que habitam o cotidiano da aula de música. Cotidiano escolar que se configura nas relações, necessárias e instigantes, entre corpo docente e administração escolar, entre jovens e/ou professores e/ou entre a comunidade que circunda a escola. Essas relações estão entrelaçadas de representações de/sobre música e sobre o fazer musical, bem como de tomadas de decisões referentes a procedimentos (atividades, estratégias) de ensino de música tão próximas das que vivemos nos ambientes pedagógico-musicais escolares.

Considerando esses aspectos, que podem ser refletidos a partir dessa película de cinema, pretendo compartilhar "um olhar" sobre duas cenas do filme, buscando desvelar as relações entre a instituição/escola e a aula de música. Contudo, é bom salientar que muitos outros olhares poderão ser lançados sobre estas mesmas cenas.

Cena 1

A cena ocorre na sala dos professores, durante uma reunião com o diretor e a equipe de ensino, na qual Deloris, irmã Mary Clarence, é apresentada a todos. Fazem parte dessa reunião o diretor, o administrador, que entra depois, Deloris, as irmãs professoras da escola, o professor de matemática e o professor de latim. Após o término da reunião é servido o almoço.

PADRE MAURICE (o diretor)

(Se levanta.) Quero que dêem as boas vindas à nossa nova aquisição... à equipe de ensino da Saint Francis ... Irmã Mary Clarence. (Não sabe exatamente o que dizer.) Que vai ensinar...

PADRE INÁCIO (o professor de matemática)

(Cochichando.) Música.

PADRE MAURICE

(Em dúvida.) Música. (Ainda sem entender.) Ainda vai ter aula de música?

PADRE INÁCIO

(Meio constrangido.) Mais ou menos.

DELORIS

(Cochichando para irmã.) Por que ele não sabe se tem aula de música?

IRMÃ MARY PATRICK

(Sem jeito, não responde.)

PADRE MAURICE

(Mais convencido.) A irmã Clarence vai dar aula de música.

TODOS APLAUDEM.

PADRE MAURICE

(Se dirige a todos.) É melhor que cada um se apresente.

PADRE INÁCIO

(Pronto, sorrindo feliz.). Eu começo. Sou o padre Inácio. Ensino matemática.

THOMAS

(Se apresenta de uma forma meio mau-humorada.) Sou Thomas. Ave magistra nova.

IRMÃ MARY

(Cochichando, para Deloris.) É o professor de latim.

DELORIS

(Sorrindo, ironicamente.) Legal.

As apresentações são interrompidas com a chegada o sr. Crisp (o administrador):

SR. CRISP

Com licença.

PADRE MAURICE

(Se dirige ao Sr. Crisp e a Deloris.) E esse... é o Sr. Crisp. A irmã Mary Clarence. A nova freira.

SR. CRISP

(Da a volta e pega na mão de Deloris.) Irmã Mary Clemens.

DELORIS

Clarence. Como Thomas Clarence, sabe? Sou a professora de música.

SR. CRISP

(Fica surpreso.) "Música?" (Se dirige ao Padre Maurice, em dúvida.) Passei aqui para lembrar-lhe da reunião desta tarde).

SAI DA SALA

Nesta cena podemos ressaltar alguns momentos: o momento em que o diretor e o administrador da escola demonstram desconhecimento tanto do que a nova professora ensinaria quanto do prosseguimento das aulas de música na escola; o constrangimento do professor de matemática ao "socorrer" o diretor e o seu orgulho, junto com o professor de latim, de trabalharem com disciplinas "respeitadas" no currículo.

Nessa cena está explícito, por um lado, o desconhecimento da direção e da administração escolar de aspectos relacionados com a música, principalmente, no que se refere à sua presença no currículo, bem como da existência de uma professora convidada para ir ministrar aulas de música na escola. Por outro lado, é evidente a hierarquização das disciplinas curriculares tanto no discurso quanto nos silêncios constrangidos de outros professores da escola.

Tendo como ponto de partida algumas considerações sobre a organização da instituição (FANFANI, 2001) podemos ver a reprodução do poder institucional na manifestação de superioridade, e na condescendência dos professores de latim e matemática em relação à aula de música. Sabemos que algumas práticas consolidadas na escola, como a divisão do tempo entre as disciplinas do currículo, corroboram para que haja e se desenvolva a valorização de alguns conhecimentos em detrimento de outros no interior da escola. Valores reforçados através de ações, muitas vezes inconscientes, por professores que acreditam que suas disciplinas são mais importantes, e por alunos que dão "mais atenção" às disciplinas ditas "mais nobres". Essa escalonagem de valores "é produzida e reproduzida entre os profissionais e a escola" (DALBEN, 1991, p. 20).

Conseqüentemente, esses aspectos produzem diferentes formas de dominação nas organizações institucionais que, para Fanfani (2001)[4][4] o domínio e o controle no interior das instituições escolares se dá tanto pela burocracia quanto pela disciplina, geralmente "legalizadas", legitimadas e aceitas pelo grupo. Nesse sentido, a administração busca a obediência da professora de música e dos demais envolvidos nas atividades escolares. Do ponto de vista da escola, já estava bastante bom se Deloris conseguisse disciplinar os alunos com a música.

Enquanto o desconhecimento dos burocratas dos elementos que compõem o mundo pedagógico e o mundo externo à escola são vistos sem muitos questionamentos, no interior das organizações surgem alguns desvios que consistem em formas de romper com algumas regras pré estabelecidas, como por exemplo, quando a madre superiora e as demais freiras da escola "lutam" pela presença de Deloris na escola para ensinar música aos jovens.

Cena 2

A cena ocorre quando Deloris, motivada por um encontro que teve anteriormente com os alunos, no qual quis saber que livros e que conteúdos de música haviam estudado, vai ao diretor pedir que a escola compre material para a aula de música. A cena acontece em uma sala com o diretor e o administrador.

PADRE MAURICE

(Surpreso.) Está pedindo dinheiro?

DELORIS

É... aquele treco verde com fotos de presidentes mortos. Usado para comprar instrumentos e livros de música.

PADRE MAURICE

(Surpreso.) Mas, como comprar se a escola vai até fechar?

SR. CRISP

(Intervém na conversa.) Irmã Mary Clemence...

DELORIS

(Respira fundo.) Sr. Crisp, (fala devagar, palavra por palavra), meu nome é Mary Clarence.

SR. CRISP

(Impaciente.) Clarence. Está confundindo o Saint Francis com Loyola em Marymount... ou Notre Dame. Aqui não há dinheiro.

DELORIS

(Ironicamente.) E ainda assim conseguem pagá-lo.

PADRE MAURICE

O Sr. Crisp está certo. É sorte estarmos funcionando.

DELORIS

(Meio nervosa, impaciente.) Daí gostaria que um de vocês me dissessem... O que eu faço com essas crianças?

Nesse momento cai uma bola na sala em que estavam e quebra o vidro.

SR. CRISP

(Levanta, para a bolinha com o pé, a pega e coloca-a na mesa.) (Bravo.) Ensine-as jogar futebol.

PADRE MAURICE

(Sem entender.) Não temos bola para isso.

Deloris sai para o recreio e vê que os jovens cantam, dançam, improvisam em conjunto e individualmente uma canção em rap... Intervém e improvisa com os jovens.

Nesta cena podemos destacar outros momentos bastante recorrentes quando pensamos sobre a música nas escolas: o momento em que Deloris pede para que a escola compre livros e instrumentos musicais; o administrador continua desconhecendo a "nova professora de música" e, quando uma bola cai na sala em que estavam e quebra o vidro de uma janela, o administrador, ironizando, pede para que Deloris ensine futebol, mas o diretor o relembra que não tinham bola para isso.

Vemos uma total desvalorização não só da música na escola, mas também do profissional/professor de música. Fatos dessa natureza têm, muitas vezes, desencadeado momentos frustrantes na carreira, bem como sensação de impotência perante algumas circunstâncias vividas na escola. O professor seja por desconhecer os mecanismos da instituição, seja por despreparo ou seja por não conseguir apresentar argumentos substanciados em discussões da área deixa de exercer uma função política de extrema importância na auto-afirmação tanto do ensino de música na escola quanto do seu próprio trabalho na instituição.

Nesta cena ainda está explícita a necessidade que a professora, Deloris, sentia dos materiais (livros e instrumentos), a falta de respeito para com a aula de música e novamente o desconhecimento dos dirigentes escolares das potencialidades do seu ensino: tanto fazia ensinar música ou futebol.

Neste momento, entra em cena, na organização institucional, a questão dos recursos, que podem ser classificados em: espaciais, tecnológicos e financeiros (FANFANI, 2001, p. 40). Nesse filme a sala de música, recurso espacial, estava inutilizável, mas com a ajuda dos alunos e demais colegas professores seria possível retomar as aulas naquele espaço, mas Deloris necessitava de livros e instrumentos musicais para suas aulas - recursos tecnológicos. Não havia, portanto, recursos financeiros para a compra.

Olhando para o entorno dessa cena vemos uma escola que, como ia ser fechada, se negava gastar dinheiro com atividades secundárias; uma professora que já havia visto "os livros de música pregados, em bolinhas de papel, no teto da sala de aula", mas que insistia na compra. Por que Deloris sentiu a necessidade de livros e instrumentos musicais? Seria apego aos procedimentos e fazeres musicais tradicionais (a música no/dos livros, práticas instrumentais)?

Vemos também que, apesar de não estar presente aos olhos da instituição, a música existia "em um aparente silêncio", em espaços e tempos "marginais" na escola como, por exemplo, a música dos recreios. Na contramão das discussões institucionais a escola/alunos exercitava(m) outras práticas musicais, práticas que não estavam nos programas e nem nos livros escolares, mas que faziam parte do dia-a-dia dos alunos, de suas culturas e grupos sociais.

Algumas considerações

Quando se trata da presença da música na realidade escolar brasileira podemos ver que as cenas recortadas do filme americano, cuja estória se passa em uma escola de periferia americana, apresentam momentos corriqueiros. No filme essas cenas são "criadas e repetidas em estruturas narrativas reconhecidas por nós" (REIA-BAPTISTA, 1995, p. 2), criando, portanto, um "sentimento" de identificação.

Essa identificação perpassa pelo reconhecimento dos problemas enfrentados pelos professores e pela aula de música nas instituições escolares. Muitas vezes tanto a escola quanto os professores, ao situarem a música como uma forma de expressão da subjetividade, o que é apenas uma das mais diversas e talvez inúmeráveis possibilidades do fazer musical, dão à prática musical um sentido "místico" , portanto, quase inexplicável.

Tal como está no filme dentre as frustrações comuns do professor estão a falta de espaço e de material (livros e instrumentos) para dar aula de música. Contudo, é importante salientar que quando se pensa que a música está presente nos muitos tempos e espaços da vida cotidiana das pessoas é necessário que avaliemos e atentemos para as dimensões da experiência musical para que haja um fazer musical significativo na escola. Sob esta ótica, provavelmente, essas experiências não estarão contidas nos livros escolares e mesmo a execução instrumental torna-se em mais uma das possibilidades de práticas musicais.

Se pensamos que "toda interação com a música se dá através das várias formas de recepção, ação e experiências com o fenômeno sonoro" (DeNORA, 2000, p. 31) a aula de música na escola deverá atentar-se para as experiências de audição musical que os alunos estabelecem no cotidiano de seus grupos sociais e com as mídias, TV, rádio, internet, etc. Essas relações resultam em muitos tipos de manifestações musicais e que, para as quais, a escola não deve "fechar os olhos".

É crucial que a escola volte-se para "práticas musicais que pertencem aos alunos", o que no filme foi tratado sob a insígnia da metáfora "mudança de hábito", que cabe bem quando se tem todo um processo de resignificação da aula de música naquela escola. Nesse sentido, o filme, com uma narrativa bastante peculiar, apresenta "imagens coletivas de pessoas e de instituições em nossa cultura" (BRAND e HUNT, 1997, 138; BRAND, 2001, p. 5) que apontam para a multiplicidade de aspectos que envolvem a música no ambiente escolar.

No que se refere ao filme é importante que sejam realizadas outras leituras. Leituras que possam focalizar aspectos já acenados como as várias concepções de música e do fazer musical, bem como as práticas musicais dos alunos tanto no ambiente escolar quanto fora dele. Também são ricos os significados das interações dos alunos com a música na construção de seus processos identitários. Além disso, é interessante uma abordagem da trilha sonora que está intrínsecamente associada com a trama do filme, inclusive com muitas canções compostas pelos próprios atores, o que, de alguma forma, confere um certo sentido de "autenticidade" a toda a argumentação muitas vezes subjacente ao conteúdo do filme.

Ficha Técnica

Título original: Sister Act 2: back in the habit

Origem: Estados Unidos

Ano: 1993

Direção: Bill Duke

Roteiro: James Orr, Jim Cruickshank e Judi Ann Mason, baseado nos personagens criados por Joseph Howard.

Produção: Scott Rudin e Dawn Steel

Trilha sonora: Miles Goodman

Fotografia: Oliver Wood

Desenho da produção: John DeCuir Jr.

Direção de arte: Louis M. Mann

Figurino: Francine Jamison-Tanchuck

Edição: John Carter, Pembroke J. Herring e Stuart H. Pappé

Estúdio: Touchstone Pictures

Elenco: Whoopi Goldberg (Deloris van Cartier/Irmã Mary Clarence);

Maggie Smith (madre superiora);

Kathy Najimy (Irmã Mary Patrick);

Wendy Makkena (Irmã Mary Robert);

Mary Wickes (Irmã Mary Lazarus);

Bernard Hughes (Padre Maurice);

James Coburn (Sr. Crisp);

Michael Jeter (Padre Ignatius);

Sheryl Lee Ralph (Florence Watson);

Robert Pastorelli (Joey Bustamante);

Thomas Gottschalk (Padre Wolfgang);

Lauryn Hill (Rita Louise Watson);

Brad Sullivan (Padre Thomas);

Allana Ubach (Maria);

Ryan Toby (Ahmal);

Ron Johnson (Richard "Sketch" Pinshum)

Jennifer Love Hewitt (Margaret)

Devin Kamin (Frankie)

Christian Fitzharris (Tyler Chase)

Tanya Blount (Tanya)

Mehran Marcos (Marcos)

Yolanda Whittaker (Sondra)

Bill Duke: Mr. Johnson

Sinopse

Deloris Cartier, a cantora de Las Vegas, está de volta ao hábito nesta história. Desta vez, Deloris atende ao pedido especial das irmãs do convento Santa Catarina. Elas querem que Deloris seja a nova professora de música na escola Saint Francis High School em São Francisco, que por falta de verbas estava para fechar as portas.

Assim, mais uma vez, ela veste seu disfarce de "irmã" para transformar em Mary Clarence para realizar sua missão: transformar um bando de adolescentes desafinados num coral capaz de ganhar o prêmio do festival. A única maneira de impedir que a escola seja definitivamente fechada.

Tempo: 108'

Gênero: Comédia

Dados biográficos de Bill Duke (1943- )

Nascido em Poughkeepsie, em Nova York, nos Estados Unidos, tem trabalhado com sucesso atuando e dirigindo no cinema, na televisão e no teatro. Estudou direção e graduou-se no renomado American Film Institute.

Filmografia de Bill Duke (direção):

1979 - Knots Landing (TV series)

1981 - Hill Street Blues (TV series)

1981 - Falcon Crest (TV series)

1982 - Fame

1986 - Flag

1991 - Rage in Harlem

1992 - Deep Cover

1993 - The Cemetery Club

1993 - Sister Act 2: Back in the habit

1997 - Hoodlum

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[1][1] Este trabalho parte do conceito de instituição, como sendo "um agrupamento social legitimado". De acordo com Douglas (1996, p. 56-57) a instituição "codifica a informação, toma decisões e resolve problemas rotineiros e produz regularmente pensamentos em favor dos indivíduos".

[2][2] Em 1992 estreou o Filme Mudança de Hábito (Sister Act), o primeiro filme. Deloris van Cartier (Whoopi Goldberg) é uma cantora que acidentalmente testemunha um brutal assassinato cometido pelo seu namorado. Enquanto tentam capturá-lo é mandada para um convento em São Francisco disfarçada de freira, usando o nome de irmã Mary Clarence, que dá uma nova vida ao coral do convento tornando-o em um "grupo cheio de ritmo e de balanço".

[3][3] Fazendo referência ao trabalho de Deloris com o coro das freiras realizado no filme Mudança de Hábito 1.

[4][4] Fanfani (2001, p. 40), para realizar a discussão da Escola como uma organização, recorreu a dois autores: a Max Weber, que estudou a burocracia das organizações; e a Michel Foucaut que analisa a lógica disciplinar que "modela a vida interna das organizações burocráticas", extraindo sua descrição das formas de dominação e exercício do poder.